Diários do bunker – parte 3
Desculpem o excesso de franqueza, mas acho melhor que seja assim mesmo, o diário é meu, falo o que eu quiser. Tem uma coisa que por aqui nesses pagos me irrita muito e faz com que todos os meus esforços para parecer simpática sejam abortados. Alguém, por favor, explica porque trabalhar com eficiência é quase que uma ofensa pessoal?
Exemplo prático: caixas de supermercado. Nunca em toda a minha existência esperei tanto na fila do supermercado. Chega a ser ridículo a demora, falta de vontade e incompetência da maior parte das pessoas para trabalhar. Quando alguém como eu surge, o tipo de cliente que costuma chamar a atenção e botar a boca no trombone, deus o livre! Praticamente já senti pessoas cuspindo na minha cara através da força do pensamento, apenas porque eu ousei querer atendimento.
Eu sei que vou soar petulante, mas me parece algum problema de lentidão na hora de raciocinar. Não falo só dos coitados que são obrigados a trabalhar em supermercados nojentos, abarrotados e sem ventilação, falo também sobre tornar as coisas mais práticas.
Outra cena, mais um exemplo. O salão de beleza que eu frequento, esse bateu recordes no meu “irritômetro”. O único motivo pelo qual eu continuo frequentando são os preços e a minha manicure, que é adorável. A maior parte dos cabeleireiros são homens heterossexuais, que enxergaram no filão da beleza uma maneira de ganhar grana e eles até que são competentes. O problema é o horror sonoro, as criaturas não medem esforços para tornar o salão quase que numa casa de shows.
Além da televisão sempre estar no volume máximo, daquele jeito que de tão alto nem dá pra prestar atenção, sempre tem algum deles dando gritos e tirando onda da cara dos colegas e pasmem: dos clientes. Um dia um dos rapazes fez tanta brincadeira da cara de uma criança que eu só pude sentir pena do coitadinho se encolhendo na cadeira. O tipo de energia masculina que nada tem a ver com a suposta paz que toda a mulher procura quando vai “dar um tempo” na estética.
Mesmo com tudo esculachado: sofá minúsculo de tecido pegajoso para os clientes que aguardam atendimento, cabeleireiros mal educados, poluição sonora, calor infernal, decoração inexistente e péssima portaria, os caras faturam uma nota. É dinheiro que não acaba, aliás, donos de estética são os mais bem sucedidos por essas bandas, sem medo de errar afirmo que existem duas estéticas a cada quadra na cidade inteirinha.
Estão me achando rabugenta? Juro que eu refleti sobre essa hipótese, mas conversando com outros amigos que estão na mesma situação de estrangeiros pude constar que possa ser um traço cultural. Como pode um estado como esse acumular tanto capital quando a força motora dessa engrenagem aparentemente não está preparada para as suas funções? Será que competência não é requisito pra ganhar dinheiro?Qual é o motivo dos empresários ainda não investirem em treinamento? Será que a ignorância ainda é o caminho mais fácil para continuar explorando as pessoas mais simples ou são elas as culpadas pela exploração, já que também não tomam a iniciativa de buscar algo para a sua instrução?
Estado paternalista, pessoas em eterna dependência e carência, esse é o retrato do Brasil. Juro que nessa hora tento ter uma visão budista, tento enxergar a natureza ilimitada das pessoas, mas, não consigo ver fim para a base na qual nosso país foi construído.
Melhor blog dos últimos tempos
O Classe Média Way of Life é um blog muito bem humorado, que faz uma análise dos modos e costumes desses grandes bastiões da verdade brasileira.
Os textos são afiadíssimos, o suficiente para que eu o considere o melhor blog dos últimos tempos.
Não percam tempo, leiam:
Diários do bunker – parte 2
No meio do salão do baile avistei os meus anfitriões e de repente me senti muito próxima a eles. Suas histórias carregadas de nostalgia, seus olhares distantes, tudo aquilo foi como se estivesse olhando meu reflexo no espelho.
A sensação de que estávamos ali reunidos naquela noite por um motivo especial era forte. Parecia que o universo estava comunicando a sua vontade, dizendo que entre os meus iguais começaria tudo de novo.
Dentro do meu coração vasculho mais uma vez atrás de força. Enquanto isso, para seguir em frente, utilizo a razão para que ela vá me guiando. E, apenas minha pouca paciência é que me torna mais tolerante para acolher esse mundo novo que se apresenta.
Explicações, essa é a parte que cansa. Abrir a boca e soar estrangeira aos ouvidos dos nativos sempre consegue estragar a minha almejada invisibilidade. Minha alma campeira está presente e se faz notar, o que sempre me torna alvo de especulações, que quase sempre acabam em dois adjetivos: “reservado” e “bravo”.
Um gaúcho nem sempre é reservado e bravo, mas quando ele age assim tenha a certeza que se trata de um momento de reflexão. Os resultados desse estudo definem diferentes análises antropológicas e padrões comportamentais, que num segundo momento servem para saber se com aquele determinado grupo podemos enfim relaxar e sermos nós mesmos.
Acho que tantas lutas e guerras nos deixaram em eterno estado de vigília. Acho que na verdade o gaúcho está sempre na defensiva, lutando pela sua liberdade. Assusta ver coisas muito definidas, preto no branco, certo comportamento de boiada.
Por isso mesmo não saímos por ai entregando o jogo de primeira, é preciso tempo e cuidado, alguns dos ideais que carrego comigo ainda hoje podem ser perigosos para a manutenção da república. Esse é mais do que o peso da tradição, é uma herança! Desde sempre marcada com a ideia de que um mundo melhor só pode pertencer a homens e mulheres livres.
E, agora? Será que saio de dentro do bunker de vez ou continuo só dando minhas escapadas por ai? Bom, vou continuar minha análise e depois decido. Porém, confesso que com o passar dos dias sinto-me mais ligada a esse lugar sossegado.
I love you and Buddha too (Manson Jennings)
Oh Jesus, I love You
And I love Buddha too
Ramakrishna, Guru Dev
Tao Te Ching and Mohammed
Why do some people say
That there is just one way
To love You, God, and come to You?
We are all a part of You
You are un-nameable
You are unknowable
All we have is metaphor
That’s what time and space are for
Is the universe Your thought?
You are and You are not
You are many, You are one
Ever ending, just begun
Alright, alright, alright
I love You and Buddha too
Claro 3G
Parabéns aos vendedores de plano de assinatura da Claro 3G! O motivo? Sei lá, a maioria das pessoas que fizeram comentários aqui no blog estranhamente todas usavam Claro 3G. Não é bárbaro?
É, sempre um passo à frente.
Firmado ao pé da cruz
Vamos começar uma pequena e breve experiência. Leiam isso despidos de suas intolerâncias, das suas verdades, dos seus medos e carências. Não evoque lembranças de repressões religiosas anteriores, apenas por um breve momento absorva a lição, que existe e é bela, por detrás dessa história.
“E Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou ao Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto;
E quarenta dias foi tentado pelo diabo, e naqueles dias não comeu coisa alguma; e, terminados eles, teve fome.
E disse-lhe o diabo: Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão.
E Jesus lhe respondeu, dizendo: Escrito está que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus.
E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo.
E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero;
Portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus respondendo disse-lhe: Vai-te Satanás; porque está escrito: Adoraras o Senhor teu Deus, e só a ele servirás.
Levou-o também a Jerusalém, e pô-lo sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o filho de Deus, lança-te daqui abaixo;
Porque está escrito: Mandará aos seus anjos, acerca de ti, que te guardem.
E que te sustentam nas mãos, para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra.
E Jesus respondendo, disse-lhe: Dito está: Não tentarás ao Senhor teu Deus.
E, acabando o diabo toda a tentação, ausentou-se dele por algum tempo“.
Assim são sempre todo e qualquer obstáculo no caminho. Esse texto cristão é tão budista que chega a doer!
Viva a nova era! Viva! Viva a espiritualidade e a união das sabedorias religiosas do mundo! Viva!
Por hoje é só. Mas, pra encerrar mesmo deixo vocês com essa: “Para combater o mal temos que estar sempre um passo à frente”, frase escolástica (essa só meu anjinho do cabelo de canela entende) dita num filme maravilhoso que vi hoje.
Diários do bunker – parte 1
Esqueci de mencionar uma coisa muito peculiar que acontece aqui no interior de São Paulo aos olhos dessa estrangeira gaúcha. Aliás, começo hoje a escrever meus diários do bunker.
Primeiro que todo mundo parece “hiper-super-mega” religioso. Sério, isso me chama muito a atenção, no Rio Grande do Sul a espiritualidade parece ter mais ênfase do que a religião, é assunto individual, não é como aqui que define os grupos, as roupas e os gostos das pessoas.
As bancas de revista também são uma experiência a parte. Cerca de 90% das bancas da cidade repetem um padrão bizarro, recheadas de revistas pornográficas de um lado, revistas de artesanato e culinária do outro e apenas um balcão com lançamentos de outros assuntos misturados com edições antigas a preço de nova.
Bizarro mesmo foram dois homens que estavam olhando a capa do jornal com a Geyse da Uniban na capa. Adianto que eram dois pobres diabos, mas, que espelham bem o típico machão brasileiro. “Olha a roupa que essa menina tava, tinha mais que passar a mão”, disse o mais boçal e carola dos dois.
O ódio me subiu e com certeza eu devo ter ficado vermelha. Nessas horas tenho vontade de virar um gigante de dez metros de altura e sair distribuindo soco e pontapé. Depois penso na realidade do brasileiro médio e tenho vontade de me bandear para um país bem longe da América Latina. Por último, fico triste e lembro que a ignorância é fruto de um país sem estudo e que depende só dos brasileiros mudar isso.
São apenas observações feitas num dia qualquer. O interior de São Paulo me encanta e me acolhe com muita simpatia. Apenas esse meu lado repórter me faz observar alguns detalhes que outra pessoa mais dentro do contexto nem perceberia.
O outro lado do apagão
O apagão que atingiu o país ontem foi uma coisa tão “Ensaio sobre a cegueira”. Sabem aquele filme que o Fernando Meirelles fez do livro do Saramago?
Pois é, de repente todo mundo ficou cego e eu na TV acompanhando aquelas imagens das pessoas desorientadas, chorando e deixando o desespero tomar conta. Ora, não tinha como não fazer o paralelo com o filme! Ainda mais que a cidade que serviu de cenário do filme era São Paulo e ontem os mais desesperados pareciam ser os paulistas.
Eu, do meu bunker interiorano, lugar no qual recupero minhas forças, achei tudo tão surreal pela tela da televisão. Lembrou um pouco esse clima de final do mundo no qual estamos inseridos, também recordei aquele episódio horrível de quando São Paulo ficou a mercê do PCC. Deve ser duro morar na capital, acho que as pessoas que escolheram essa vida são corajosas e um pouco malucas.
Quando eu estou em São Paulo duas coisas sempre acontecem. A primeira fase é o deslumbramento. Entro e saio do metrô, entro e saio dos lugares interessantes, me atiro de cabeça nas livrarias, compro roupas, vou num restaurante legal e sempre que posso vou num desses shoppings centers gigantes e modernos.
Logo em seguida começa o segundo estágio da minha estadia em São Paulo, que eu até poderia definir como pânico. Não sei o motivo, mas o tamanho de tudo me dá certo sufocamento. Andar de metrô perde a graça na segunda baldeação. A quantidade de pessoas acumuladas nos lugares, até numa singela fila de cinema, me dá um cansaço e um mau humor…
Três dias, esse é o meu prazo por lá. O mais engraçado é que eu adoro a terra da garoa, de coração, queria muito não ter esses ataques, mas depois de uns anos descobri que eles são mais fortes do que eu. Bom, um dia eu domino essa loucura.
Voltando ao apagão. Que foi esse apagão? Pra mim parece uma coisa tão armada, porque, vejam bem, que chuva ou tempestade magnética ia conseguir deter uma coisa tão poderosa como Itaipu? Por ser jornalista eu sei das artimanhas que rolam por baixo dos panos. Mesmo parecendo bobo para alguns, mas, a projeção que o Brasil vem ganhando (coroada pelas olimpíadas de 2016) incomoda muita gente.
Será que esse é o primeiro de uma série de boicotes que estão por vir? Espero que não.
Mais sobre 2012
Hoje numa dessas “coincidências”, eu descreveria mais como sintonias, acabei me deparando com o trabalho do diretor brasileiro João Amorin. O mais incrível é que não é apenas o interesse nessa nova cultura sobre o término da contagem de tempo maia, no dia 21 de dezembro de 2012, que nos une.
Olhando outros vídeos dele na internet percebo que ele também tem outra coisa em comum comigo e que agora estou dando risadas. Parece que não fui só eu que larguei tudo para ir morar em Alto Paraíso e depois ganhar o mundo. Êita missão!
Deixo vocês com o único curta dele que está com legenda em português (parece que ele vive em Nova York, um dia, quem sabe, eu chego lá).
Mulher, navio negreiro.
Para a Geyse, que acaba de saber que foi expulsa da Uniban, que se julga uma instituição de ensino, mesmo depois de tantos episódios de desrespeitos ocorridos em seu campus do ABC Paulista, só posso oferecer a minha solidariedade.
Quando eu era pequena achava que em 2009 a gente já estaria andando de carros voadores, como aqueles dos Jetsons. Mas, mesmo que isso se torne uma realidade, ainda continuaremos, como era mostrado no papel da boba dona-de-casa protagonista do mesmo desenho, renegadas ao mesmo papel de fúteis e infantilóides.
Ao mesmo tempo que mulheres devem ser infantis e dóceis em menos de um segundo todas podem se tornar diabólicas. Basta uma opinião mais “forte”, uma atitude mais libertária em relação ao sexo ou, no caso da Geyse, uma roupa mais decotada. Pronto: viramos as messalinas!
Há muito tempo que as feministas do mundo inteiro não cansam de divulgar a informação de que a luta pelo direito das mulheres não está nem perto do fim. Somos humilhadas nos mais diversos setores da sociedade e nosso papel em meio aos representates ainda é parco, quando não é nulo em muitos países.
Mesmo com os seios expostos nos desfiles de carnaval o Brasil ainda não está preparado para libertar o corpo feminino. Na avenida, cheio de purpurina, onde nossos corpos representam o ápice do instinto sexual, apenas as belas são aceitas. Mães de família somente assistem e se abanam em frente ao aparelho de televisão acostumadas com a passagem das escolas de samba entra ano e saí ano.
As mesmas senhoras respeitáveis esperam até altas horas da noite em vigília pelos maridos, com a mesa do jantar posta. Algumas delas, até que bem moderninhas, com idades entre 20 e 30 anos, formadas, viajadas e informadas, sem perceber repetem o mesmo padrão. Mesmo com toda a suposta liberdade, o que se vê é uma perpetuação entre minhas companheiras de sexo de um comportamento de boiada.
Baixamos a cabeça para as injustiças contra as Geyses da vida para agradar o marido, o filho, o padre, o pastor, o chefe e o até o reitor. Ficamos quietas ou até mesmo nos voltamos umas contra as outras sendo nossas maiores censoras, apenas para não destoar do padrão. Por que, lembrem-se: a autenticidade é subversiva.
Espero que a Uniban seja punida de alguma forma e que os grupos feministas, se é que não foram a maioria desarticulados por falta de militância, tomem uma providência.
Mulheres, usem a roupa que quiserem, incendeiem a máscara da vergonha, descubram sua força e reajam contra atitudes que continuam a nos segregar. Se o que aconteceu com a Geyse não foi o suficiente, então, vamos mexer no que dói, o bolso. Digam, qual é a explicação racional para os homens ainda ganharem mais do que a gente?
Fiquem com o mestre Tom Zé